MEDO DO FUTURO

Uma das mudanças mais significativas no Zeitgeist do início do terceiro milênio diz respeito às expectativas da humanidade em relação ao futuro. Se a modernidade foi marcada pelo otimismo acerca do progresso contínuo, da evolução permanente em direção a um melhor, a passagem entre os séculos XX e XXI, em vez disso, inaugurou a era da insegurança e do medo como pivôs da visão de mundo do homem contemporâneo. O futuro passou a ser percebido, então, como um lugar de poucas certezas e de muitas ameaças. Para o indivíduo comum, o trabalho e a carreira são terrenos cada vez mais competitivos e menos assegurados, os empregos desaparecem e é preciso “reinventar-se” profissionalmente em permanência, sob o risco de tornar-se obsoleto e dispensável. A velhice depende crescentemente de uma aposentadoria desvalorizada, cujo sistema, alardeia a mídia, está prestes a explodir. O capitalismo e a democracia vivem sob crises e ameaças constantes. Não bastaram todas as coisas propriamente humanas para assombrar as perspectivas. Desde 2007, com as conclusões da Conferência do Clima das Nações Unidas, estamos todos implicados na suprema insegurança sobre o próprio futuro do planeta.

 

Um aspecto essencial dessa reversão de quadro no espírito do tempo é a sua generalização em todas as classes sociais e latitudes. O que preocupa alguns é a violência urbana, o trânsito mais mortal do que certas guerras ou a tirania. Outros estão em permanente alerta contra ataques terroristas – que passaram a assumir a lógica da sociedade do espetáculo -, surtos de sociopatas em escolas ou catástrofes naturais. Em um claro sinal de que o medo está na moda, o informe publicitário de uma revista, no metrô paulistano, alerta sobre como agir durante um… ataque nuclear. Até a guerra fria ensaia um revival. Definitivamente, o mundo tornou-se um lugar pouco seguro para se viver.

 

Já em 2004, o Observatório de Sinais chamava essa macrotendência de Medo S.A. Respondendo à preocupação crescente das pessoas com a violência e a segurança, o design estabeleceu uma relação ambígua com esse campo, ora flertando com a ganância (caso da corrida armamentista alimentada pela indústria – já é lugar comum afirmar que a indústria da segurança é das que mais crescem, desconhecendo crises), ora fazendo o discurso da cultura da paz. O Museu de Arte Moderna de Nova York tem se destacado na exploração dessas relações em nível curatorial. Em 2005, a antológica exposição “Safe Design” propunha uma reflexão a partir de uma série de objetos projetados para proteger o corpo e a mente de circunstâncias perigosas e estressantes, responder a situações de emergência e proporcionar a sensação de conforto e segurança. A exposição passeava por territórios tão variados quanto os abrigos urbanos, a saúde, o corpo, a camuflagem, o ruído, entre muitos outros. Projetos de móveis concebidos para proteger das ondas eletromagnéticas que proliferam pela casa, por causa da multiplicação de aparelhos tecnológicos, ladeavam propostas ao mesmo tempo lúdicas e melancólicas, como a parca “Final Home” do designer japonês Kosuke Tsumura e seu ursinho de nylon como complemento, um cult de meados dos anos 1990. Foi tamanha a repercussão dessa mostra que o MoMA deu continuidade ao projeto com a plataforma “Design and Violence” (designandviolence.moma.org), um experimento online que explora manifestações da violência na sociedade contemporânea, reunindo desde o projeto de uma penitenciária orientado pelos direitos humanos dos presos, até uma proposta em design olfativo buscando sintetizar o “cheiro de violência” em um perfume.

 

Alguém pode objetar que tal cenário sombrio não corresponde à imagem que o brasileiro tem de sua vida e de seu futuro, reiteradamente “feliz e otimista”, a julgar pelos resultados de pesquisas de todo tipo. É sempre bom lembrar que o enclausuramento das nossas classes médias em condomínios cada vez mais fortificados e hipervigiados produziu o triste neologismo “brasilianização” urbana, usado mundo afora. E que o anseio popular por mais segurança pública equipara-se aos de saúde e educação, entre as demandas atuais mais prementes. Enfim, não há contradição entre um otimismo renitente, individual, e um estar no mundo percebido cada vez mais pela ótica da insegurança e do medo, quando se trata de avaliar a sociedade em que vivemos e o futuro que nos aguarda.

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