MODA, PARADIGMA EM CRISE

No final do século XX, a moda alcançou a legitimidade como manifestação sociocultural relevante, paralelamente (e não por acaso) ao interesse que o mercado financeiro passou a dedicar às marcas do setor e à renovação das maisons de luxo. A generalização da ideia de que o indivíduo se expressa também pela maneira como se veste e a proliferação das fashion weeks em todas as latitudes são apenas duas das consequências trazidas pelo novo estatuto da moda na cultura global. Do ponto de vista sociológico, foi o advento de um novo “fato social total”, isto é, aquele tipo de fenômeno que permite explicar boa parte do funcionamento da sociedade como um todo. Estava claro que a produção contínua da obsolescência e a incessante busca do novo, próprias da moda, haviam-se tornado o modus operandi da sociedade de consumo, muito além do universo das roupas.

 

Um ar de fim de festa, no entanto, paira sobre o sistema de engrenagens que fez a indústria da moda funcionar até aqui. As causas desse processo são múltiplas e profundas. De um lado, a aceleração das tendências e a banalização da imagem trazidas pelo digital fazem com que as marcas não consigam mais alcançar a tão desejada “revelação do novo” ao consumidor. Entretido com o consumo imaginário que a nova cadeia da informação lhe proporciona – acesso aos desfiles em tempo real, assédio das marcas anytime, anywhere, modelos plebiscitados nas redes sociais e fartamente reproduzidos antes que cheguem às lojas –, o consumidor se satisfaz com os simulacros produzidos pelas redes de fast fashion, e passa adiante.

 

A essência do problema é ainda mais grave, e refere-se ao esvaziamento da moda como paradigma. No momento em que as preocupações com o desenvolvimento sustentável atingem o grau de difusão e de enraizamento que estamos vivenciando, fica difícil sustentar um posicionamento apoiado na renovação permanente, avesso da durabilidade. Do lado da responsabilidade social, a despeito das denúncias de precarização do trabalho que se tornam mais e mais frequentes, o fato é que entre nós, brasileiros, elas ainda não causam quedas acentuadas de consumo para as marcas atingidas. Mas fica a pergunta: até quando?

 

No fundo, a moda está passando por uma forte crise de identidade, que não deixa de ter aspectos benéficos. Os sinais de mudança e de busca por alternativas entre os players do setor estão nitidamente se avolumando. O sintoma mais evidente talvez seja a perda de relevância das semanas de moda. A cada temporada, são cada vez mais numerosas as marcas que optam por apresentar seus produtos de maneira inovadora, mais próxima do consumidor final, fugindo das estruturas convencionais dos grandes eventos. Outro aspecto fundamental em debate são os objetivos da formação profissional nesse segmento. Multiplicam-se as críticas aos cursos de moda com currículos construídos para tentar forjar o próximo designer disruptivo, o novo “grande nome” da moda, ao passo que o espírito do tempo pede antes trabalho colaborativo e domínio de competências mais amplas, que vão da tecnologia ao marketing, passando pela sintonia fina com o comportamento do consumidor.

 

Nesse contexto, torna-se relevante observar como vão se comportar vastos segmentos da indústria que passaram as últimas décadas “namorando” o paradigma moda, boa parte do design inclusa (alô, modelo Ikea!). Enfim, resta saber se e como a velha senhora moda, fênix por definição, vai deglutir os novos desafios, incorporá-los e reinventar-se.

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