• CONSUMO EM TEMPOS DE CRISE

    Realizada em 2009 pelo Observatório de Sinais, a publicação dos resultados principais da pesquisa vem bem a calhar em 2015, com a volta do cenário de crise. A ideia principal da pesquisa era avaliar expectativas, temores e hábitos de consumo em relação à crise econômica de 2008-2009, à sustentabilidade e à possibilidade de mudanças de comportamento de consumo em função dessas duas grandes variáveis.

PORQUÊS

os temores e hábitos de consumo em relação à crise econômica
Os brasileiros continuam otimistas em relação ao futuro (próximo e distante)?
A crise econômica que eclodiu em setembro de 2008 gerou quais impactos sobre os hábitos de consumo?
E a questão da sustentabilidade, até que ponto ela já permeia o cotidiano do indivíduo comum? A crise vai ser um acelerador na adoção de hábitos sustentáveis?
Há diferenças significativas entre homens e mulheres? é possível antever mudanças mais profundas, que cheguem a questionar em sua essência a visão de mundo e a ética capitalistas?

capitalismo sim*consumo moderado*ganância não

Há correlação entre satisfação pessoal e consumo?

76

SIM

24

NÃO

Otimistas, mas realistas

“Qualidade de vida, para mim, é algo cada vez mais ligado ao bem-estar”

23% dos pesquisados dizem estar totalmente satisfeitos com sua vida, percentual que sobre a 89% somando-se as respostas parcialmente positivas. O grupo menos satisfeito é o das mulheres de 35 a 49 anos: apenas 20% se disseram totalmente satisfeitas.

No cômputo geral, 76% concordam, em todo ou em parte, que haja uma correlação entre satisfação pessoal e consumo, ou seja, 24% negam, total ou parcialmente, essa ideia.

Quando relacionamos o ato de comprar a uma das principais formas de lazer, 27% discordam totalmente dessa proposição, e 41% discordam parcialmente.

A aceitação da proposição cai com o aumento da idade, fenômeno que ocorre entre os homens também.

100% das pessoas prognosticam alguma melhora na vida para daqui a um ano. Quando se trata de falar sobre o futuro mais distante, esse índice é menor: 30% têm certeza absoluta e 59% concordam mais do que discordam (somando 89%) de que estamos indo em direção a um futuro melhor.

Consumo

De modo geral, há uma desafeição pelo consumo no ar. O que se evidencia é uma tendência a repensar posições e limites – capitalismo sim, consumo moderado pode ser, ganância não – ainda expressa de modo confuso, próprio das crises. Para o indivíduo, o epicentro da crise não é o mercado financeiro ou a economia, e sim a sua consciência de consumo.

O recado de 72% dos pesquisados é que o momento é propício para repensar o estilo de vida consumista como um todo. Ao mesmo tempo, na outra ponta, 26% são um bocado de gente que não põe fé em mudanças nesse sentido.

O consumismo é responsável pela crise?

57%

SIM

27%

NÃO

Ética capitalista: espaço para repensar

“Acumular bens sempre mais não prejudica ninguém”

Na hora de refletir e se posicionar sobre a ética capitalista, o resultado é um verdadeiro racha, quase um empate: 49% concordam total ou parcialmente que o acúmulo contínuo de bens e mercadorias ao longo da vida não prejudica ninguém, e 51% discordam total ou parcialmente.

Apenas 16% não transigem e discordam totalmente que “não sendo contra a lei, vale tudo para ganhar dinheiro”, percentual que sobe a 19% entre as mulheres e cai a 13% entre os homens. Somando-se a discordância parcial, chega-se a 46% dos respondentes, ainda assim aquém da maioria.

Nesse caso, ao contrário do ponto anterior, há um contraste entre a posição de homens e mulheres: no geral, os homens são bem mais numerosos na aprovação da assertiva – 62% contra 46% das mulheres.

Com relação ao consumismo, embora a maioria (57%) concorde em todo ou em parte que ele é parte da crise, é preciso olhar a outra ponta, pois, na média, cerca de um quarto dos respondentes (27%) não concordam, em todo ou em parte, com essa correlação.

Já com relação à ganância, a grande maioria, 88% a identificam como causa da crise.

Geração X

Constatamos que os grupos a partir de 35 anos expressam mais fortemente valores ligados a uma ética e a uma estética essencialistas. Embora o futuro esteja nas mãos das jovens gerações (que admitem até mesmo abrir mão de sua privacidade em prol do planeta), do ponto de vista do poder instituído (público e privado) são os 35-50 anos que operam a transição que estamos vivendo.

Trata-se da Geração X. No Brasil, vale lembrar que é a geração que nunca chegou a se descolar definitivamente das crises – portanto, são os “descolados em crise”.

O brasileiro parece não ter internalizado o pessimismo, como o fizeram os norte-americanos e os europeus, até mais compreensivelmente. Os pesquisados deixaram claro que, no assunto crise, o jeito é a montagem de um menu de estratégias de acomodação, atualizado, ampliado e utilizado de acordo com a maior ou menor gravidade dos acontecimentos e seu reflexo concreto na vida prática de cada um, em uma negociação permanente do indivíduo consigo mesmo para redefinir o que vai ser entendido como essencial ou supérfluo.

Individualistas sim, mas conscientes

“Minha vida depende de mim, só de mim e de mais ninguém”

Quisemos saber como anda a avaliação do individualismo entre os respondentes. Diante de uma proposição sobre a autonomia do indivíduo em gerir a sua própria vida (o que pode ser considerado como uma definição do próprio individualismo), 56% concordaram em todo ou em parte.

Ao testar proposições sobre o individualismo em outro contexto – o das mudanças climáticas e a questão mais ampla da sustentabilidade -, esse individualismo manifesto é bastante matizado pelos pesquisados: são 93% no geral a concordar em todo ou em parte com a ideia de que nossa vida no planeta está interconectada com a de outros seres, irremediavelmente.

A preocupação com a sustentabilidade já penetrou a tal ponto na visão de mundo dos pesquisados que eles já são 13% (homens e mulheres, todas as idades) a admitir terem seus hábitos de consumo monitorados por terceiros em favor da preservação do planeta. Além disso, há outros 25% de homens e 37% de mulheres que admitem discutir o assunto, somando 38% e 50%, respectivamente.

Lícito, pero no mucho

Repensar o capitalismo – ok, mas até onde? Se é verdade que, no plano sociocultural, o repúdio da opinião pública à ganância e as prisões de gente “do andar de cima” são sinais positivos, ao mesmo tempo, na mais capciosa das questões éticas propostas no questionário, apenas 16% dos pesquisados se lembraram de que nem tudo o que é lícito convém.

O que esperar dos produtos?

34%

MODA E TENDÊNCIAS

12%

PRODUTOS BÁSICOS NÃO DEVEM CUSTAR TÃO CARO

92%

QUEREM PRODUTOS COM CLICLO DE VIDA MAIS LONGOS

Yes, we can : e a gente, também pode?

“O poder de mudar o mundo está em nossas mãos”

Introduzindo a idéia de empoderamento do indivíduo – outro pilar do individualismo - a concordância é maciça: 88% dos respondentes estão de acordo com ela, em todo ou pelo menos em parte.

Sobre o tema do poder de mudar o mundo, investigamos até que ponto o fenômeno Obama e seu mantra “Yes we can” se fazem presentes na visão do mundo dos entrevistados. Apenas 18% dos pesquisados concordaram sem restrição. A maioria, 63%, até concorda, mas com restrições.

Sobre a crise econômica, 30% acreditam que ela trará mudanças efetivas e duradouras no estilo de vida das pessoas. Somando aos 42% que responderam concordar em parte, chega-se a 72% do total.

Apenas 30% dos entrevistados não relataram alguma mudança de hábito em função da crise. Dos 70% que relataram mudança, as referências mais freqüentes (29%) foram em relação a um consumo mais consciente.

80% dos respondentes declaram-se prontos a mudar de marca ou de loja, dando adeus à fidelidade, se encontrarem um preço mais baixo com qualidade similar, e 79% admitem estar fazendo mais pesquisa de preços para comprar, por causa da crise.

Quando propusemos uma inclinação cada vez maior a comprar produtos que sigam moda e tendências, expressivos 64% disseram discordar total ou parcialmente.

Isolamos os que responderam concordar com a idéia de que vão comprar cada vez mais produtos sustentáveis para ver como se comportavam em relação à assertiva acima. 34% também querem moda e tendências, e 12% se recusam a achar que uma camisa branca pode valer mais do que três camisas fashion. Por fim, 92% consideram que produtos como roupas e utilidades domésticas deveriam ter um ciclo de vida mais longo.

Visão ODES

A infidelidade do consumidor se confirma e se acentua com a crise, conforme constatamos. Na verdade, no ponto em que estamos, boa parte dos consumidores ainda quer conciliar pontas aparentemente inconciliáveis, como a da sustentabilidade com a renovação permanente do consumo, que os fenômenos de moda tornam possível.

Como operacionalizar esse parodoxo no nível do desenvolvimento dos produtos, da gestão das marcas e da identidade das empresas? Abre-se um grande espaço de renovação de linguagens, mas o consumidor já distingue entre os diversos modos de apropriação da sustentabilidade que o mercado realiza (o “de verdade” geralmente oposto ao “marqueteiro”, nas representações dos entrevistados).

Outros conceitos- marmitex, como “contemporâneo”, “inovação” ou “design” (como adjetivo) perdem totalmente o apelo, se não apresentarem um valor de uso efetivo dentro do novo contexto sociocultural. Aqui, um grande alerta: não será admissível fazer as coisas pela metade.

Como alertávamos já em 2007 com a palavra de ordem escolhida para aquele ano, mais do que nunca o momento exige comprometimento, em todos os níveis. Definitivamente, a década de 2010 confirma-se como a de transição entre duas lógicas, em direção a uma sociedade e cultura pós-consumistas.

Por aí...

Onde o estudo já foi citado
o estudo foi idealizado para ajudar as empresas e instituições a navegar na crise, sem correr grandes riscos e preparando-se para a retomada.

A Pesquisa ODES “Consumo em Tempos de Crise” foi realizada entre fevereiro e março de 2009, em três etapas:

uma pesquisa foi realizada com parte do cadastro do Observatório de Sinais e complementada por telefone; entrevistas em profundidade e análise comportamental; e uma pesquisa específica de sinais socioculturais e de diversos setores do mercado. Este material é um resumo do relatório completo da pesquisa

Imagens Raphael Person, vídeo Alain Souchon - Parachute (EMI France) e Legião Urbana - Que país é esse? (EMI BR).

Questionário por e-mail
  • 514 respondentes do cadastro do Observatório de Sinais
  • 54% são mulheres e 46% são homens - Classes A e B
  • Formação superior - Economicamente ativos
  • 56% têm entre 18 e 34 anos e 44% têm entre 35 e 64 anos
  • 75% moram nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul
Questionário por telefone

100 entrevistas de confirmação e aprofundamento de algumas questões Amostra extraída do banco de dados, colaboradores e “antenas” do Observatório de Sinais, com perfil pré-definido em função dos objetivos

Entrevistas em Profundidade e Análise Comportamental

24 entrevistas em profundidade com homens e mulheres de 18-24 anos (6), 24-34 anos (6), 35-49 anos (6) e mais de 50 anos (6) Construção de perfis comportamentais por categoria

Pesquisa de Sinais

Monitoramento de mídia (veículos nacionais e internacionais) Detecção, observação e interpretação de sinais socioculturais Pesquisa de mercado, sinais macro-econômicos e dos principais players de setores estratégicos