Três mensagens oferecendo serviços de coaching na minha caixa postal, no mesmo dia, levaram-me a refletir sobre um dos paradoxos mais contundentes do nosso tempo: a oposição entre a ideia de self management e a “coachmania” que tomou de assalto a sociedade contemporânea.

De um lado, generalizou-se a ideia de que é preciso ser um bom gestor de si mesmo, o que inclui não apenas desenvolver habilidades e competências na esfera profissional e nas relações de trabalho, como também na vida pessoal, nos relacionamentos e num longo etecetera.

Trata-se de mais um sinal da irrefreável mercantilização do imaginário e do predomínio do estilo de vida corporate sobre todos os outros.

Esqueça a religião ou a filosofia: a plenitude é um fim que só pode ser alcançado por meio do uso racional e planejado de técnicas de gestão. É claro que um pouco de irracionalidade é sempre bem-vinda, mesmo no terreno pedregoso da administração. Por isso, sob a forma de um quê de mistério, ela faz parte do pacote de serviços dos profissionais que prometem entregar o nirvana da autorrealização.

O apelo ao “poder da atitude” ou à “mentalidade positiva”, no melhor estilo do best-seller O Segredo, pontuam regularmente o discurso dos que nos oferecem “a chave”.

A diferença é de referencial, uma vez que essas novas formas de pregação em favor da superação dos limites do “eu” vêm embaladas em ciência – se tiverem um perfume de neurociência, melhor ainda, mais up to date.

De outro lado, o discurso do coaching dá e tira ao mesmo tempo, pois quanto mais admitimos a existência de nossas “verdadeiras potencialidades”, mais entramos em contato com a frustração e mais prontos estaremos para reconhecer a necessidade de treinar para desenvolvê-las. Aqui, a influência da cultura fitness entra no jogo, pois tudo se transforma em uma questão de atrofia ou de hipertrofia. Nesse contexto, o termo coaching, que se generalizou nos últimos quinze anos, cabe à perfeição. Personal coaching, group coaching, self coaching: a criatividade dos ideólogos do “treinamento comportamental” não conhece limites para nos convencer de que, mais do que viver (ou navegar), treinar é que é preciso.

O aspecto mais divertido e, ao mesmo tempo, assustador, a meu ver, é a verdadeira cultura da terceirização de si que esse processo todo engendra. E esse é o núcleo duro do paradoxo: ao mesmo tempo que temos de nos gerir e (re)inventar em permanência, passamos um verdadeiro atestado de incompetência sobre nós mesmos ao precisarmos de profissionais terceiros especializados em praticamente tudo o que se possa imaginar. E nem me refiro às coisas “difíceis”, do tipo apagar o seu perfil no facebook (sorry, geração Y) ou escolher um apartamento para comprar.

Da maquiagem ao relacionamento com os colegas de trabalho, de como vestir-se “apropriadamente” à limpeza do micro-ondas, da montagem de uma festinha caseira de aniversário para os filhos à arrumação de um guarda-roupa, do que é uma refeição saudável à expressão de seus sentimentos numa relação amorosa: tudo, absolutamente tudo é objeto de tutoriais, de listas com “dez dicas sobre como fazer”, de “personals”, de experts e de “treinadores comportamentais”

E dá-lhe mais um paradoxo: no “auge” da sociedade da informação e do conhecimento, do empoderamento do indivíduo e da autonomia do consumidor, tudo se passa como se tivéssemos desaprendido as mais elementares e corriqueiras atividades cotidianas.

O que a cultura da terceirização de si e da expertização nos ensina é que a vida não é para principiantes, que não basta estar vivo para vivê-la, e que um dia, quem sabe, se obtivermos o grau máximo em todos esses treinamentos intensivos, poderemos, enfim, ter acesso à plenitude, à felicidade ou, quem sabe, à morte – não sem antes consultar um personal death designer, é claro.

About the Author

Dario Caldas

Diretor do Observatório de Sinais

Fundou e idealizou a metodologia do Observatório de Sinais (ODES). É professor de pós-graduação e educação corporativa. Atua também como palestrante, consultor e mentor. Tem cinco livros publicados.

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