Coachmania

Coachmania


 


Texto: Dario Caldas


 

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Três mensagens oferecendo serviços de coaching na minha caixa postal, no mesmo dia, levaram-me a refletir sobre um dos paradoxos mais contundentes do nosso tempo: a oposição entre a ideia de self management e a “coachmania” que tomou de assalto a sociedade contemporânea.

De um lado, generalizou-se a ideia de que é preciso ser um bom gestor de si mesmo, o que inclui não apenas desenvolver habilidades e competências na esfera profissional e nas relações de trabalho, como também na vida pessoal, nos relacionamentos e num longo etecetera.

Trata-se de mais um sinal da irrefreável mercantilização do imaginário e do predomínio do estilo de vida corporate sobre todos os outros.

 

Esqueça a religião ou a filosofia: a plenitude é um fim que só pode ser alcançado por meio do uso racional e planejado de técnicas de gestão. É claro que um pouco de irracionalidade é sempre bem-vinda, mesmo no terreno pedregoso da administração. Por isso, sob a forma de um quê de mistério, ela faz parte do pacote de serviços dos profissionais que prometem entregar o nirvana da autorrealização. O apelo ao “poder da atitude” ou à “mentalidade positiva”, no melhor estilo do best-seller O Segredo, pontuam regularmente o discurso dos que nos oferecem “a chave”.

 

A diferença é de referencial, uma vez que essas novas formas de pregação em favor da superação dos limites do "eu" vêm embaladas em ciência – se tiverem um perfume de neurociência, melhor ainda, mais up to date.

 

De outro lado, o discurso do coaching dá e tira ao mesmo tempo, pois quanto mais admitimos a existência de nossas "verdadeiras potencialidades", mais entramos em contato com a frustração e mais prontos estaremos para reconhecer a necessidade de treinar para desenvolvê-las. Aqui, a influência da cultura fitness entra no jogo, pois tudo se transforma em uma questão de atrofia ou de hipertrofia. Nesse contexto, o termo coaching, que se generalizou nos últimos quinze anos, cabe à perfeição. Personal coaching, group coaching, self coaching: a criatividade dos ideólogos do “treinamento comportamental” não conhece limites para nos convencer de que, mais do que viver (ou navegar), treinar é que é preciso.

O aspecto mais divertido e, ao mesmo tempo, assustador, a meu ver, é a verdadeira cultura da terceirização de si que esse processo todo engendra. E esse é o núcleo duro do paradoxo: ao mesmo tempo que temos de nos gerir e (re)inventar em permanência, passamos um verdadeiro atestado de incompetência sobre nós mesmos ao precisarmos de profissionais terceiros especializados em praticamente tudo o que se possa imaginar. E nem me refiro às coisas “difíceis”, do tipo apagar o seu perfil no facebook (sorry, geração Y) ou escolher um apartamento para comprar. Da maquiagem ao relacionamento com os colegas de trabalho, de como vestir-se “apropriadamente” à limpeza do micro-ondas, da montagem de uma festinha caseira de aniversário para os filhos à arrumação de um guarda-roupa, do que é uma refeição saudável à expressão de seus sentimentos numa relação amorosa: tudo, absolutamente tudo é objeto de tutoriais, de listas com “dez dicas sobre como fazer”, de “personals”, de experts e de “treinadores comportamentais”...

 

E dá-lhe mais um paradoxo: no "auge" da sociedade da informação e do conhecimento, do empoderamento do indivíduo e da autonomia do consumidor, tudo se passa como se tivéssemos desaprendido as mais elementares e corriqueiras atividades cotidianas.

 

O que a cultura da terceirização de si e da expertização nos ensina é que a vida não é para principiantes, que não basta estar vivo para vivê-la, e que um dia, quem sabe, se obtivermos o grau máximo em todos esses treinamentos intensivos, poderemos, enfim, ter acesso à plenitude, à felicidade ou, quem sabe, à morte - não sem antes consultar um personal death designer, é claro.

  1. Estela

    setembro 18

    Dario, pensei nesse coach mania na semana passada. Tenho exatamente o mesmo pensamento que vc. Todas as vezes que me deparava com esse assunto tinha uma sensação de q estavam propondo quase uma nova religião (é o que me parece quando levam ao high level conceitos como "o segredo). Apenas o que tira a semelhança do coach com a religião é que é demasiado ego envolvido enquanto o último ainda tem um sentido bem forte de um conceito de comunidade. Outro dia fiquei decepcionada ao ver coaching para crianças (para desenvolverem seus lados emocionais, suas inteligências, etc). Bom, realmente a gente se dá conta de que realmente a educação hj em dia precisa mesmos ser tercerizada. Não basta a escola, tem que botar o filho no coaching pra ver se alguém ensina pra ele como viver, pois os pais já não tem (ou não querem ter) mais controle pra essa "futilidade" que é a educação. Adoro seus textos, me inspiram e nao me sinto sozinha com minhas reflexões. Obrigada! Estela