DATAFOBIA: OS DESAFIOS DAS MARCAS NA SOCIEDADE DA VIGILÂNCIA

DATAFOBIA: OS DESAFIOS DAS MARCAS NA SOCIEDADE DA VIGILÂNCIA


Essa é uma história de contratendência em ascensão. Enquanto os dados são, e continuarão sendo, nos próximos anos, a bola da vez para as empresas e a economia como um todo, do lado dos consumidores começa a emergir uma verdadeira paranoia contra os excessos da tecnologia e dos big data, quanto à segurança e integridade individuais.

É inegável: vivemos em uma cultura da vigilância. Sociedades baseadas em social scores, como já se vislumbra na China, ensombrecem o presente e o futuro. No Brasil, notícias sobre hackeamentos e celulares no centro de acusações e de processos criminais põem mais lenha no debate sobre a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que entra em vigor em 2020.

A sensibilidade que chamamos de DATAFOBIA é a crônica de uma distopia anunciada. Ela faz surgir uma profusão de produtos e gadgets que apontam para o desejo dos indivíduos por proteção, segurança e privacidade. Confira os sinais:

 

PARANOIDESIGN

 

O projeto Acessórios para os Paranoides, desenvolvido pelas designers Katja Trinkwalder e Pia-Marie Stute, explora uma abordagem alternativa da segurança de dados através de objetos chamados de “parasitários”. Por exemplo, uma webcam que projeta cenas fabricadas e um botão que gera dados fake online – tudo para “borrar” o perfil digital do usuário e “enganar” os potenciais interessados em rastrear seus dados.

 

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Acima e abaixo, alguns dos produtos "parasitas" concebidos para despistar rastreadores de dados. Fotos: divulgação.

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INCÓGNITO

 

É o nome do acessório projetado pelo Studio Noma de design, com o objetivo específico de impedir o reconhecimento facial do usuário. O objeto impede a leitura das zonas do rosto usualmente utilizadas para a identificação individual. Será essa a futura cara das ruas?

 

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Foto: Estúdio Noma, divulgação.

KOMORU

 

O Komoru é um produto pensado para se ter a mão, em casa ou no escritório.  Desenvolvido pelo estúdio Cohda, sua função é muito simples: ele serve para bloquear o sinal de celulares e de outros aparelhos, silenciando o ambiente e ajudando a controlar a ansiedade gerada pela permanência online. Isso é conseguido mergulhando os objetos em um recipiente cheio de microesferas capazes de interromper toda transmissão de ondas eletromagnéticas. Em tempo: o nome e a inspiração do produto vêm do jardim japonês.

 

Foto: Estúdio Cohda, divulgação.

 

ESCOLAS FONEFREE

 

Cresce o movimento por uma educação que afaste as crianças dos celulares e as mantenha offline – pelo menos, durante o período da escola. Smartphones estão sendo considerados “corrosivos” em processos de ensino-aprendizagem, já que é praticamente impossível competir com eles...

 

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O Yondr Pouch é uma bolsa especial para "trancar" o celular, que fica com o usuário, mas não dá para usar. Foto: divulgação.

 

PROTEÇÃO DESDE O BERÇO

 

O mundo parece estar se tornando um lugar cada vez mais ameaçador... Na mesma linha do desejo profundo por proteção - em uma vertente um pouco diversa, mas que também dá o seu testemunho sobre a inflexão que vemos no Zeitgeist -, o berço Argo foi projetado pelo estúdio francês Noir Vif  para proteger o bebê das ondas eletromagnéticas que infestam o ambiente. Esse efeito é conseguido graças à combinação do trabalho em madeira artesanal com camadas de cobre.

 

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Berço Argo. Foto: divulgação.

VIGIAR & CONSUMIR?

 

A economia do século XXI é data-oriented. Os dados são uma fonte de riqueza inestimável, porque têm mil e uma utilidades - planejamento urbano, políticas públicas, saúde, agricultura... -, além de terem se tornado baratos. Toda e qualquer empresa, hoje, coleta dados – de uma mina de alumínio no Pará até a venda de esquina do bairro (sem contar Google, Facebook e o governo, o maior coletor de todos...). Nesse cenário, é normal que os projetos em analytics ganhem tanto interesse e urgência.

A economia do século XXI é data-oriented

 

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Foto: internet.

 

O porém dessa história é que os consumidores não estão tão entusiasmados assim. Eles veem com desconfiança crescente as interações com marcas que dependem da disponibilização de dados. A tendência ao empoderamento do consumidor e ao consumo consciente, bem como a nova LGPD, só vão aprofundar esse quadro.

Para as marcas, estratégias consumer-centric ganham um novo significado – na realidade, tudo o que envolve a privacidade e a segurança de dados adquire significados muito precisos, como o conceito de consentimento do consumidor (veja aqui uma ótima discussão sobre esse e outros pontos essenciais).

Será necessário manter interesses, necessidades, desejos e temores do consumidor no foco de todo o processo de transformação digital - em analytics inclusive, e principalmente.

Nenhum dado pode ser mais valioso do que a confiança depositada pelo consumidor em uma marca – tão difícil de construir e tão fácil de perder.

Por fim, será preciso convencer o consumidor das vantagens que ele pode obter ao conceder acesso aos seus dados, se quiser. O cadastro positivo dos bons pagadores, já em vigor no Brasil, é um claro exemplo nessa direção.


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