• Publicados originalmente pela revista AbcDesign entre janeiro de 2013 e setembro de 2016.

Se existe um trend inegável – no sentido de uma tendência de fundo, de temporalidade longa e amplitude vasta – é, sem dúvida, a estetização de todas as esferas do cotidiano, uma das faces do capitalismo pós-industrial. É verdade que houve outras épocas em que a obsessão estética sobrepujou os aspectos práticos, como o estilo de vida rococó das cortes setecentistas, ultracodificado, ou o dandismo simbolista com seu mantra “a existência como obra de arte”. Por outro lado, a ideia de estetização como elemento distintivo da pós-modernidade também não é nova, estando em pauta desde os anos 90, pelo menos. Nada disso chegaria perto, no entanto, do atual impulso estetizante, quer por sua generalização, quer pela intensidade com que o fenômeno ocorre no presente, ou ainda, por sua transformação em condição sine qua non para todas as formas de consumo.

De fato, o consumidor está cada vez mais em sintonia com uma vida dedicada ao prazer estético, em definição ampla: a fruição dos sentidos e da natureza, as sensações do corpo, o jogo das aparências e das modas, o entretenimento, as viagens, os jogos – em uma palavra, a “multiplicação das experiências sensíveis

Essa, pelo menos, é a tese do último livro do filósofo francês Gilles Lipovetsky, “L’esthétisation du monde” (“A estetização do mundo”), escrito em parceria com Jean Serroy

É claro que há movimentos mais subterrâneos estruturando esse comportamento. O hiperindividualismo, o narcisismo, o prazer do instante, o desejo de expressar-se e de “ser você mesmo” configura uma ética que, como sempre, também é uma estética. Nesse caso, uma “est-ética”, uma ética estética da vida, que é também de massa. Vivemos uma estetização democrática, que não se limita mais a estratos ou categorias sociais. O anseio pelo belo deixou de ser acessório ou distintivo de classe para ocupar o centro da escala de valores que compartilhamos.

Além de tocar a todos e a tudo – das roupas e objetos à casa e aos interiores, do digital à cidade, da alimentação ao entretenimento, do turismo à arte, do popular ao erudito, do underground ao mainstream –, a estetização contemporânea opera por um método de crossover sistemático, misturando todos esses territórios e desafiando as classificações estanques, conhecidas até aqui.

Artwork by Alex Reyes.
Artwork by Alex Reyes.

As excepcionais séries de televisão produzidas atualmente são entretenimento, arte ou mercado? Como definir os melhores momentos das experiências gastronômicas de hoje? E quando Marina Abramovic se associa a Jay-Z, onde começa a arte, onde termina o pop?

O caso do design é emblemático e talvez ilustre a macrotendência que discutimos aqui melhor do que qualquer outro campo. Nas últimas décadas, a concepção de design migrou de “uma camada final de verniz”, como boa parte do mercado ainda o considerava, para uma espécie de princípio ativo que potencializa o projeto, seja ele qual for. Com a tecnologia e o marketing, o design forma o tripé de sustentação das iniciativas bem-sucedidas. Na economia da variedade, da personalização, da inovação em permanência, o design torna-se definidor da identidade de produtos e serviços, participando, mais do que nunca, da lógica de construção das marcas – a ponto de hoje ser possível afirmar que “sem design, não há marca”.

Para o designer, o novo status traz consequências importantes, entre as quais o seu afastamento da figura do engenheiro (sem menosprezar competências técnicas, bem entendido) e uma aproximação crescente com o artista, o criativo. É assim que o campo do design acaba por originar e cultivar o seu próprio star system, como a moda.

Nem todos veem o novo quadro com bons olhos, havendo os que lamentem pelo afastamento dos ideais da profissão. A meu ver, esse é um julgamento excessivamente severo sobre a produção contemporânea. Apesar dos excessos – que podem gerar um estetismo tão anacrônico quanto o modernismo asséptico que se pretendia negar -, a exigência por beleza e emoção cresce pari passu com as demandas por simplicidade, cidadania e respeito ao ambiente, criando novas alianças entre “lógica artística” e “mundo design”, ético e verde. Mais do que o futuro, quero crer, é o presente, no sentido de uma resposta mais afinada com as demandas individuais e sociais, que está sendo gestado nessas novas e excitantes hibridações.

About the Author

Dario Caldas

Diretor do Observatório de Sinais

Fundou e idealizou a metodologia do Observatório de Sinais (ODES). É professor de pós-graduação e educação corporativa. Atua também como palestrante, consultor e mentor. Tem cinco livros publicados.

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