Publicado na Folha Equilíbrio de 25/12 sobre “pós-familismo”

Da família do futuro ao futuro da família

Estudos recentes colocam um grande ponto de interrogação sobre o futuro da família. Não é a primeira vez, nem terá sido a última. Os argumentos atuais baseiam-se em tendências demográficas inegáveis, como a queda constante das taxas de natalidade, o aumento do número de casais sem filhos e de lares unipessoais, sobretudo nas grandes cidades, e a diminuição da taxa de casamentos em diversos países.

A realidade resultante desse quadro é previsível e prevista há tempos. No cerne dessas mudanças, está a mulher e a evolução de seus papeis, da liberação sexual à conquista do universo do trabalho. Ficou difícil equilibrar tantos pratos – profissão, família, filhos e beleza física -, ainda mais diante da aceleração dos estilos de vida e das dificuldades econômicas modernas. Do lado dos homens, o discurso dominante nos últimos vinte ou trinta anos foi que ser homem não é constituir família, prover e procriar.

Ao contrário, ao homem moderno cabem os cuidados de si e do corpo, as compras, novas experiências na urbe sensorial, etc. Some-se a esse quadro o individualismo galopante, de vertente hedonista-narcisista, e o juvenismo sociocultural, que nos vendeu a todos a ideia de que é possível e desejável viver em sempiterna adolescência. O total dessa conta não poderia ser outro do que as constatações demográficas, acima resumidas.

Embora o retrato atual seja esse – insisto: gestado e legitimado socialmente, nas últimas décadas -, há um excesso de pessimismo (ou de otimismo, dependendo do ponto de vista…) nas previsões de que o futuro aponta para o fim ou para a superação da família. Ao contrário, multiplicam-se os sinais de sua renovação, por exemplo, na diversidade dos novos arranjos familiares. Pesquisas demonstram que os jovens continuam expressando o desejo de união (não necessariamente casar-se, mas que importa?) e a maioria das mulheres, quando as condições concretas da vida o permitem, pensa em ter filhos. O anseio por família, casamento e filhos dos casais homoafetivos é especialmente relevante, se considerarmos que se trata de uma fatia da população cujo comportamento é tido como precursor, sob diversos aspectos. E se a preservação da espécie continua sendo a pedra de toque do comportamento evolutivo, resta-nos perguntar: o futuro será “pós-familista”, como pretendem alguns, ou moderno mesmo será conjugar a família em novos tempos e modos?

About the Author

Dario Caldas

Diretor do Observatório de Sinais

Fundou e idealizou a metodologia do Observatório de Sinais (ODES). É professor de pós-graduação e educação corporativa. Atua também como palestrante, consultor e mentor. Tem cinco livros publicados.

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