Geração Z

Geração Z


 


Texto: Dario Caldas  /revista AbcDesign nº 51

 

Análises geracionais são excelentes ferramentas para compreender a evolução dos valores e captar mudanças sociais. Os profissionais de marketing sabem disso. Eles adoram definir características e criar segmentações, nem sempre razoáveis, a partir de subculturas etárias, para criar e comunicar produtos e serviços.

 

No presente, vivemos mergulhados numa verdadeira sopa de letrinhas, com uma profusão de pesquisas e análises tentando entender como as gerações X, Y e a recém-chegada Z relacionam-se entre si e veem o mundo.

Nunca se falou tanto de uma geração como dos Ys. Não é um acaso: o mundo de hoje “pertence” aos nascidos entre 1980 e 1999 (os cortes variam bastante segundo a fonte), que começam, agora, a ultrapassar a linha de 35 anos de idade. Os primeiros rebentos da Geração X (1965 -1979), por sua vez, começam a romper o limiar dos 50 anos, ingressando na maturidade. Vai ser divertido observar como a turma pós-moderna vai vestir o “modelito” de senhoras e senhores respeitáveis.
Interessa-nos, aqui, olhar para a outra ponta do espectro geracional, onde começa a tomar corpo a novíssima Geração Z, nascida a partir dos anos 2000 e de nome oficial ainda por definir, como, de resto, todo o seu perfil comportamental. De fato, é cedo para bater o martelo sobre os Zs, pois será preciso esperar mais alguns anos para que essa turma se torne adulta e cristalize valores, crenças e comportamentos que possam ser descritos e analisados. Mas é tamanha a necessidade de perscrutar as mudanças no horizonte – especialmente, as diferenças entre esses primeiros nativos digitais e os Ys – que diversos estudos comparativos já estão sendo realizados.
Uma primeira conclusão é que, no mais das vezes, em vez de apontar mudanças, tais pesquisas captam, sobretudo, continuidades dos Zs em relação à geração anterior. É o caso de características como velocidade, imediatismo, mente aberta e maior tolerância em relação ao outro, valores que, aparentemente, vão apenas acentuar-se entre os Zs. Esses “achados” não devem ser vistos como falsos resultados, pois é normal que a primeira onda de uma nova geração seja muito fortemente influenciada pelos valores da geração precedente.

 

Para dar conta desse fenômeno, é comum vermos segmentações do tipo “Ys mais velhos” e “Ys mais novos”, por exemplo.
Uma pesquisa recém-publicada nos EUA mostrou que o site mais popular entre os Zs é o Youtube, enquanto os Ys citam a Amazon. Pode parecer trivial, mas o recado é a preponderância do vídeo como linguagem privilegiada para a nova geração, o que faz pensar no início da era da TV e na fase de ouro da propaganda, guardadas, é óbvio, todas as proporções.

 

Outro ponto que pede reflexão cuidadosa é que os Zs entrevistados alegaram preferir um bom produto a uma boa experiência, ao passo que os Ys afirmam exatamente o contrário. Caso essa inflexão se confirme, todo o universo do consumo atual, focado no consumidor experiencial, deverá ser repensado.

 

Afirma-se, também, que os Zs serão empreendedores por excelência, aprofundando a tendência já verificada nas últimas décadas. É um aspecto que não surpreende, diante da diminuição da oferta de empregos formais, da radicalização da terceirização e da pregação em favor do “gerenciar-se a si mesmo” como valor positivo (do self made man ao self manager). Além disso, diante da completa falência dos modelos educacionais em vigor, a tendência é que os Zs aumentem a dose de autodidatismo, sem abrir mão de uma maior escolarização formal.

Duas outras inflexões merecem atenção. Os Zs seriam mais realistas do que otimistas e, nesse sentido, menos idealistas do que os Ys e sua crença em novas formas de capitalismo “fofo”.

 

Finalmente, há quem entreveja que os Zs vão resgatar uma relação de mais respeito com a autoridade, que andou tão em baixa desde a Geração X. Se este valor se confirmar, abrem-se desdobramentos cruciais em campos tão vastos como a comunicação e a política.
Enfim, no que tange à Geração Z, a recomendação até aqui é dupla: colocar um grande ponto de interrogação nas especulações que estão surgindo, pois todas ainda são provisórias, e seguir acompanhando os sinais, já que a análise geracional se torna, cada vez mais, imprescindível.