Texto: Dario Caldas

imagem: Feldore McHugh

Já escrevi e falei sobre o tema inúmeras vezes. Se volto a ele, é porque a discussão sobre o individualismo – e a justa compreensão de seu significado – está assumindo, nitidamente, uma nova proporção no Brasil. Isto se deve, sem dúvida, ao novo momento sociopolítico-econômico, mas não só: empresas e marcas constatam que têm de repensar, urgentemente, as estratégias empregadas nos últimos dez anos, muito calcadas em visões de classe, que se mostram totalmente distantes da realidade.

O individualismo é um conceito inseparável da visão de tendências do Observatório de Sinais. Se me fosse pedido, em um tipo de exercício extremo, para apontar uma única macrotendência que melhor explicasse a evolução dos comportamentos nos últimos cinco séculos, é ao individualismo que recorreria, em suas diversas camadas e vertentes. Sem dar conta de tal fenômeno, o entendimento do consumidor e das configurações do consumo contemporâneo também ficariam capengas.

Individualismo quer dizer autonomia dos sujeitos em suas formas de pensar e de agir. Para o comportamento, o individualismo é resultante da busca por autoconhecimento e da independência do sujeito em relação ao Outro – sociedade, instituições, etc. – para valorar ou legitimar escolhas individuais.

Essa macrotendência principia com a própria emergência da noção de indivíduo, na Idade Moderna. Até então, não havia indivíduos na acepção plena da palavra, mas apenas integrantes de partes que compunham um todo social.

Foi preciso que muita coisa acontecesse para que esse “um” mais independente do todo surgisse: a evolução da ciência, Galileu interferindo na ordem “natural” das coisas, o mercantilismo e o início da acumulação capitalista, o ocaso da civilização teocêntrica no Ocidente, o Renascimento e o humanismo recolocando o homem no centro do universo, entre outras mudanças fundamentais. A partir de então, as ideias de modernidade, mudança, abertura ao novo e ao futuro ganham espaço. Perdem a tradição, as “verdades” prontas, o pensamento e o comportamento preestabelecidos como direções únicas a seguir.

A história pode ser contada pelo prisma do ganho de autonomia dos indivíduos em relação às instituições que regulavam modos de vida e visões de mundo. Fazendo um salto de cinco séculos apenas para contrastar mais fortemente as cores, hoje é possível, praticamente, “ser tudo aquilo que você quiser”.

Pátria, Família, Religião, Classe, Sindicato, Partido, Imprensa, Bom Gosto, Orientação Sexual, não tem mais jeito: a fragmentação do mundo é um processo tão forte quanto o estilhaçar das identidades, entendidas como pacotes prontos e acabados. Ao indivíduo moderno só cabe construir e reconstruir incessantemente a própria identidade, exercendo a sua liberdade diante das escolhas possíveis (virtualmente, todas).

Alexis de Tocqueville, pai fundador do prisma individualista nas ciências humanas, definiu o conceito nos seguintes termos:

“Individualismo é uma expressão recente, que nasceu por causa de uma ideia nova. Nossos pais apenas conheciam o egoísmo. O egoísmo é um amor apaixonado e exagerado por si mesmo, que leva o homem a nada relacionar senão a ele apenas e a preferir-se a tudo. O individualismo é um sentimento refletido e pacífico, que dispõe cada cidadão a isolar-se da massa de seus semelhantes e a retirar-se para um lado com sua família e seus amigos, de tal sorte que, após ter criado para si, dessa forma, uma pequena sociedade para seu uso, abandona de bom grado a própria grande sociedade”.Em “A Democracia na América” (1835-1840),

Tocqueville também lançou as bases para pensarmos porque a busca pelo bem-estar (e pelo bem-estar material, especificamente) ganha relevo para um povo eivado por valores como igualdade e liberdade. Absolutamente atual.

O individualismo é uma tendência em processo, sem data para terminar. No entanto, o reino da liberdade individual e da escolha por caminhos próprios, baseados em motivações pessoais, emocionais, nem sempre é um lugar cor de rosa e confortável. Ao contrário, ele é cheio de contradições e de forças que atuam no sentido contrário à autonomização dos sujeitos. Por isso, muito mais fácil é enquadrar-se e seguir a boiada.

Entre as contradições ao ethos individualista, podemos citar o politicamente correto, a força de opiniões de aluguel da “inteligência bem pensante”, a esmagadora preferência por hits, modismos, influências e best sellers, que parecem (apenas parecem) negar o élan individualista.

Os profetas do “coletivo” e da supremacia do “nós” sobre o “eu” defendem que o individualismo é a fonte primária de todos os males. É mais um desserviço do obscurantismo militante, que insiste maldosamente no aspecto senso comum do individualismo (o “amor exagerado de si” ou, até mesmo, o “autismo social”).

No entanto, não há volta nessa tomada de consciência de si, a que o indivíduo moderno está inelutavelmente condenado. Para o bem e para o mal.

Voltaremos oportunamente ao tema…

About the Author

Dario Caldas

Diretor do Observatório de Sinais

Fundou e idealizou a metodologia do Observatório de Sinais (ODES). É professor de pós-graduação e educação corporativa. Atua também como palestrante, consultor e mentor. Tem cinco livros publicados.

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