London Calling 2012

London Calling 2012



Às vezes, não entendo a cobertura da imprensa sobre determinados acontecimentos. Parece, por exemplo, que elogiar o “primeiro mundo” ainda é coisa de complexo de vira-latas, ainda mais agora, que corre a fábula de termos nos tornado a “sexta economia do mundo”, ultrapassando justamente... os anfitriões da 30ª Olimpíada da era moderna. Nesse sentido, a abertura dos jogos olímpicos de Londres foi um chamamento à ordem, sob diversos aspectos.

Em primeiro lugar, a festa nos lembrou o significado da palavra show. Os ingleses fizeram um espetáculo inesquecível, bem diferente da grandiosidade intempestiva de Pequim, em 2008, com aquela estética de ginastas em ordem unida, uma herança do sistema comunista-militar tão século XX. Londres também veio disposta a relembrar ao mundo o poder que ainda pulsa forte na Inglaterra, mas o fez sem arrogância nem clichês. Sim, estavam lá a indefectível Rainha, Beckham e James Bond, mas até esses personagens vieram inseridos com um certo distanciamento, numa narrativa bem-humorada. Mas o “chamado” mesmo foi aos valores, sutilmente representados, sob a forma das contribuições britânicas à civilização ocidental: da revolução industrial (para o bem e para o mal) à literatura infantil, do característico humor britânico ao estado do bem-estar social, da cultura pop a um dos raros multiculturalismos bem-sucedidos na Europa, do audiovisual à eterna juventude da capital das “tribos urbanas”. E uma vez relembrados da importância de tal legado, de quebra ainda surge “sir” Tim Berners-Lee, um dos pais da internet, para deixar claro que não são feitas só de passado as glórias da Velha Dama.

Depois, não bastassem a potência da narrativa e o portfólio musical e os flashes da metrópole cosmopolita e os fogos de fazer empalidecerem os réveillons, o melhor ainda estava nas entrelinhas: da delicadeza (nenhum esquecimento: as crianças, os mais velhos, os mortos, os trabalhadores do estádio, a população da cidade...), da elegância com que o espetáculo foi conduzido e da inovação no acendimento da tocha, uma verdadeira aula de design.

Presente à cerimônia, nossa presidenta afirmou que em 2016 faremos mais e melhor. O fato é que Londres, fazendo “menos” do que Pequim, pôs a barra muito, muito alto.

Em tempo: Palmas para a elegância da delegação norte-americana, impecável em Ralph Lauren, lembrando que ir bem vestido é uma das formas de mostrar respeito pelo anfitrião. O Brasil optou por um modelito à la Restart. Ainda bem que surgiu uma inesperada Marina Silva para resgatar a nossa auto-estima de potência mundial...(Dario Caldas)

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