O EXPERIENCIAL COMO INOVAÇÃO PARA A MODA

O EXPERIENCIAL COMO INOVAÇÃO PARA A MODA


As primeiras fileiras dos salões de moda do País não são mais exclusivas dos especialistas e editores de moda. Agora, o espaço é divido entre "consultores de imagem", blogueiros e público em geral. A internet e o desejo de consumo individual mexeu com o setor da moda. Se a crise atinge os pontos de venda das marcas, não podemos dizer o mesmo dos frequentadores dos desfiles. Como dizem Gilles Lipovetsky e Elitte Roux, em "O Luxo Eterno",

 

Os produtos de luxo não são mais destinados apenas à clientela de elite, mas à parte elitista de cada um de nós.

O acesso à roupa permitiu a cada um de nós ter o poder de provar, comprar e consumir. Talvez por isso as marcas de todos os portes, desesperadas ou não, estejam procurando ouvir mais os seus consumidores. Do mesmo modo que os virais da internet, o desejo de consumir se dissipa entre diferentes classes antes mesmo dos eventos acontecerem.

 

SEM CARÃO: PAPO RETO E DIRETO

 

Com uma proposta inovadora, ao permitir que o público interagisse e avaliasse o evento e as marcas presentes, a FIEP - Federação das Indústrias do Estado do Paraná e seus parceiros, organizou o ID FASHION, que aconteceu nos dias 28 e 29 de outubro no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba. O texto de abertura do release fazia jus à proposta do evento:

“Experimente!”. A ideia é estimular - tanto as marcas quanto o público - a provar novas sensações, interagir com algo novo. O que requer uma postura ativa ao invés de contemplativa, com pessoas abertas e dispostas a aguçar os sentidos, conhecer e interferir. Mas, acima de tudo, “experimentar” no ID Fashion significa mergulhar de cabeça em uma experiência em “4D”: Dinâmica, Divertida, Democrática e Descomplicada.

 

A instalação  "User Experience” permitia ao público conferir a cadeia produtiva por trás da indústria da moda. A cada estande, os visitantes, em sua maioria estudantes, presenciavam da concepção até a finalização da roupa. Para Edson Korner, coordenador desse projeto, “as pessoas se fixam só na criação e não sabem que existe todo um processo técnico, uma metodologia”. Todo o processo de produção de uma peça de roupa – desenho, modelagem, corte, costura, estamparia e expedição - estavam presentes.

 

User Experience: Costura / foto: Cesar Salles

No espaço principal, tudo acontecia: marcas recentes dividiam espaço com outras já bem conhecidas do público. Em meio a discursos nada prolixos, as marcas que desfilaram, seus sócios e designers, puderam sentir diretamente o  feedback dos visitantes, que elegeram o “desfile querido” do evento.

Para Annelise Vaine, coordenadora técnica do evento, foram escolhidas como palavras de ordem "compacto e de impacto". O fio condutor era que imprensa, especialistas e  público pudessem avaliar os resultados e a própria curadoria. Trata-se de algo inédito em termos de eventos de moda.

O Paraná tem marcas com identidade própria. Queremos mostrar que o estado  tem marcas com histórias prontas para contar. Elas têm sua personalidade. No desfile , cada marca é diferente da outra. (Annelise Vaine)

Em Curitiba - e porque não  dizer, no País -  faltava  um evento que  aproximasse o produtor de seu consumidor final. A curadoria do evento procurou evidenciar as forças do Estado: jeans, moda infantil, produção de seda e malharia retilínea, ao mesmo tempo que tentou aproximar o público local do consumo de tais marcas, a serem projetadas no cenário nacional.

Verdade que a indústria da moda vive um turbilhão de altos e baixos - mais baixos do que altos - com perspectivas financeiras minguantes para suas marcas. Os organizadores entenderam que a possibilidade de os visitantes opinarem diretamente sobre os produtos das marcas, expostos no local do evento, auxiliará na criação de estratégias para solucionar a crise.

Os desfiles mostraram estilos urbanos, joviais (viva a geração Z!) e clássicos, com o uso da seda. Claro que o cenário paranaense (e não só curitibano) carece de mais espaço local para suas marcas. O que o ID Fashion pretende, no fim das contas, é alimentar o desejo de que as roupas possam, efetivamente, atingir os seus jovens consumidores.

foto: id fashion instagram

ANÁLISE: MODA NO DIVÃ PODE RENDER BONS FRUTOS

Dario Caldas

 

Se há um ponto positivo muito claro no momento da moda global-local – e eles são raros - é a disposição de seus atores para repensar o assim chamado sistema da moda, no sentido de imaginar e, algumas vezes, concretizar alternativas à forma como as coisas vêm acontecendo, nas últimas décadas.

O esgotamento da moda não é mais segredo para ninguém. No plano internacional, entre fashionistas e “tendenceiros”, multiplicam-se os questionamentos incisivos a diversos aspectos do sistema, da fast fashion aos rumos tomados pela educação no setor, e circulam manifestos que retomam ideias “contro la moda” (título de um dos livros que prenunciavam a atual onda crítica, ainda nos anos 1990). Até mesmo a discussão entre moda e roupa, que parecia superada, volta com força, com a balança atual oscilando nitidamente para uma ênfase na roupa.

ABBICI / foto:Jorge Mariano

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No Brasil, as consequências de políticas erradas para o setor, ou a simples inexistência de uma estratégia para a indústria como um todo, continuam a ser sentidas e se refletem, também, na falta de apelo dos principais eventos de moda. Desfiles interessantes até ocorrem, esporadicamente, mas quando isso acontece, geralmente se trata de um estilista ou de uma coleção que faz um comentário pertinente sobre algum aspecto atual da sociedade. Ainda é muito forte, no entanto, a desconexão do imaginário das passarelas com o mundo real. Quanto à observação da moda em busca de sinais do futuro, a avalanche retromaníaca parece ter soterrado de vez qualquer potencialidade nessa direção.

Vale da Seda. Foto: Jorge Mariano

 

Por outro lado, se os problemas são muitos e profundos, talvez o divã esteja levando a moda para o tal ponto criativo de toda crise. Iniciativas como a do ID Fashion, evento realizado pela indústria paranaense e coordenado bravamente pelo pessoal do Senai local, orientam-se pelo forte questionamento a ideias como a da própria  fashion week, tal qual ela se concretizou na segunda metade do século XX e que parece cada vez mais datada. O desafio de assumir um novo posicionamento levou à necessidade de uma reengenharia conceitual muito trabalhada, recaindo, basicamente, sobre os diversos processos que estruturam tal tipo de evento. Um dos pontos de partida foi o foco na experiência dos diversos atores e na forma de relacionamento entre eles, das marcas participantes ao público, “arejando” o formato do evento, o que foi muito positivo. Os benefícios trazidos pelo digital, ao proporcionar novas e múltiplas formas de conexão entre marca e público, consumidor e mercado, informação e acesso, podem e devem ser mais explorados. Como se sabe, há “n” experiências em curso nessa esfera, a partir de plataformas como um evento, uma marca, um blog ou outras, que certamente contribuirão para a mudança do atual cenário da moda.

STOOGE E A MALDIÇÃO DO PÉROLA NEGRA/ foto: Jorge Mariano

Se é verdade que um conceito forte não sobrevive sem produto que o sustente, não é menos verdadeiro que o momento pede ousadia e coragem para mudar. Ir mais fundo na crítica do sistema moda e na busca por alternativas, como fez o ID Fashion, parece-nos um recomeço alvissareiro.


texto de abertura: Pietro Cesar Salles

 

 

 

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