Ontem (domingo 4 de fevereiro), em Minneapolis, aconteceu a final da Liga de Futebol Americano (NFL), o Super Bowl. É uma noite importante para as marcas e o mercado – o evento já foi chamado de “a maior vitrine publicitária do mundo”. Devido à enorme audiência, novos comerciais são lançados nos intervalos e, no dia seguinte, aparecem listas comentando sobre os melhores, como esta aqui. Adoramos o comercial da própria NFL, dá uma olhada:

O esporte tem atraído cada vez mais o interesse dos brasileiros, e a transmissão local, feita pela ESPN, também tem chamado a atenção dos anunciantes. Na final de ontem, em que o Patriots perdeu para o Eagles, assistimos ao novo filme da cerveja Burguesa, da casa Di Conti. A propaganda, criada pela Momentum, traz o conceito “o sabor de estar junto” e pretende “reforçar a importância da conexão real entre as pessoas”:

https://www.youtube.com/watch?v=ys8cMdQ7Wkw

Até aí, tudo bem. O que não cola é o discurso que apela para a culpa do consumidor, como se o fato de vivermos conectados devesse ser vivido como um “problema”. O texto e as imagens exploram ideias bastante clichê: a hiperconexão acarreta solidão na metrópole desumana…a comemoração (nos estádios, por exemplo) virou uma coisa sem graça, pois todos só sabem olhar para suas próprias telas…os indivíduos mergulham na realidade virtual e se afastam das pessoas de carne e osso…

Ora, nada como um choque de realidade para contrastar. Ao mesmo tempo que a propaganda era exibida, as noticias sobre o carnaval de rua em São Paulo relatavam que o bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, sozinho, levara 1 milhão de foliões para a Consolação, naquela mesma tarde. No final de semana inteiro (e olha que ainda nem é carnaval “oficialmente”), a prefeitura contabilizou cerca de 2 milhões de pessoas nas ruas, atrás dos bloquinhos (a mesma quantidade de gente da folia paulistana inteira no ano passado). E as redes e mídias digitais, é claro, ferveram também!

Essa história de que o digital afasta as pessoas já está para lá de vencida. Por outro lado, o ODES demonstrou mais de uma vez – por exemplo, no estudo Depois de Amanhã, e agora, de novo, em Você, Cidadão – que o discurso da culpa e do peso sobre suas atitudes é tudo o que o consumidor não quer ouvir – nem mesmo para vender sustentabilidade, quanto mais para vender cerveja…

Enfim, a Burguesa, que tem uma embalagem bacana e ótimas resenhas em sites especializados, errou a mão no comercial – um exemplo acabado de como fazer um discurso de marca soar bem distante das verdadeiras tendências do Zeitgeist

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Sinais

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