POR QUE O ATIVISMO FAZ BEM PARA A MODA

Por Dario Caldas

Quem apostou em certo envelhecimento da imagem da moda, em consequência da crise identitária que o setor atravessou, no último decênio, terá de admitir que quebrou a cara. É verdade que o universo da moda é bastante heterogêneo, se considerarmos as marcas de luxo ou o fast fashion, o Bom Retiro ou as marcas autorais. Como resultante, porém, a persona da moda de hoje está mais próxima do que nunca da jovem rebelde e engajada, comprometida com o questionamento do status quo e a transformação social.

Pode-se argumentar que, de certo modo, sempre foi assim, já que é próprio da moda criar o novo e derrubar tudo o que houver pela frente, como diz a poeta em sua canção. Foi assim na década de 1920 ou nos anos 1960-70, períodos marcados por profundas mudanças nos estilos de vida, que a moda não apenas espelhou, como também impulsionou, por meio de inovações como a minissaia, para ficar no exemplo emblemático.

No presente, o élan para defender valores e propósitos, geralmente identificados com uma visão progressista da sociedade – sobretudo, em torno do tripé sustentabilidade, diversidade e inclusão -, percorre o setor de moda como um frisson e viraliza nas redes sociais. Há dois aspectos desse movimento que chamam a atenção.

 

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Vestido da marca Victor e Rolf, desfilado em Paris na coleção primavera-verão 2019. Foto: divulgação.

 

De um lado, ele é transversal e está afetando todos os segmentos e tamanhos de empresas e marcas, que, simplesmente, não têm mais como ignorá-lo. De outro, esse posicionamento da moda está funcionando como um verdadeiro motor para a inovação, com resultados tangíveis, seja no desenvolvimento de materiais, na evolução do estilo, nas ações das marcas ou na própria reconfiguração do sistema da moda como um todo.

Ou seja, trata-se de um estimulante sopro – melhor, um vendaval de renovação, como há tempos não se via, depois de um longo intervalo em que a criação pareceu se dissolver na obsessão pelo historicismo, entre pastiches e tediosas versões do mesmo.

O mais significativo, a meu ver, é o fato de que a moda está sendo fiel às suas vertentes transformadoras. A relação umbilical com a mudança social é o novo ethos da moda contemporânea e não há onda conservadora, nem crítica ideológica que poderá detê-la. Os profissionais e os amigos da economia criativa e da cultura devem abraçar a nova moda, abrir espaço e deixar florescer esse verdadeiro bastião de ativismo cultural, como o são também a música e o cinema.

A criação dos anos 2020 vai ter um papel importante na proposição de caminhos alternativos e de visões de futuro para a sociedade. É assim que gostamos da moda, é assim que precisamos dela: abusada, iconoclasta, sonhadora, um vetor legítimo de inovação social.

 

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