Por Dario Caldas

A julgar pela extensão de temas e efervescência dos debates na tempestade de lives que se abateu sobre nós, quase tudo o que existe hoje precisaria ser mudado. De fato, os acontecimentos recentes alimentaram a convicção de que temos uma janela de oportunidade para realizar grandes mudanças. A sensação de que estamos vivendo o fim de uma civilização e o início de um outro tempo é real, como já havíamos apontado. Porém, é preciso ter em mente que, ao abrirmos a porta, no dia do pós-tudo, o cotidiano vai estar lá, à espera, tal e qual existia antes de tudo acontecer. E isso pode ser bastante frustrante para quem está apostando em transformações rápidas e radicais.

É preciso ter cuidado com os raciocínios automáticos, para não se perder em deduções enganosas sobre o comportamento do indivíduo/consumidor pós-crise. A ideia de que uma grande onda colaborativa do bem vai enfim transformar o mundo me parece tão desejável quanto utópica. Pelo menos na geopolítica, os fatos indicam outra direção, como o fechamento de fronteiras, inclusive dos membros da Europa entre si, e a vitória do lema “farinha pouca, meu pirão primeiro”, nas disputas internacionais por insumos médicos. Quando faltaram máscaras e respiradores, as tais cadeias globais de produção também passaram a ser fortemente questionadas.

A ideia de que uma grande onda colaborativa do bem vai enfim transformar o mundo me parece tão desejável quanto utópica.

Como luzes no fim do túnel, porém, temos visto a ciência abrir mão de disputas e concorrências entre egos, para formar uma grande frente global em busca de tratamento e cura para a covid-19. Também está em andamento o resgate de valores mais humanistas, em detrimento da crença na sociedade tecnocêntrica como modelo de sucesso.

Ainda na linha do cuidado com clichês, a ideia de que as pessoas vão buscar mais simplicidade, mais despojamento e “menos tudo” pode desaguar em “mitologias do simples” e oportunidades desperdiçadas. Claro que tudo depende do setor de que estamos falando, mas, no geral, vamos continuar querendo beleza, qualidade e (mais) sustentabilidade. Vejo emergir um desejo ainda mais aguçado por exclusividade e se aprofundar a rejeição àquilo que é percebido como “de massa”.

O que até ontem parecia óbvio, hoje não parece tanto assim. A lista das coisas que olharemos com outros olhos está crescendo e já envolve desde as técnicas de sobrevivência em situações extremas; a casa como bunker; a roupa como abrigo; o home office e o ensino online como novos normais, em esquemas mistos com o presencial; até a percepção da poluição como um dado quase que natural da paisagem urbana, nas grandes metrópoles. Essa crise nos ensinou que a poluição pode desaparecer como mágica, bastando para isso a mudança de hábitos. A indústria de carros elétricos agradece; já a indústria do petróleo, nem tanto.

Por fim, talvez o aspecto mais positivo da crise seja mesmo a própria disposição dos mais diversos setores da sociedade a uma ampla reflexão sobre o estado de coisas e o futuro. Parar, refletir e planejar é um grande luxo na vida contemporânea e, como tal, só para privilegiados. Então, que essa grande chance não seja desperdiçada.

About the Author

Dario Caldas

Diretor do Observatório de Sinais

Fundou e idealizou a metodologia do Observatório de Sinais (ODES). É professor de pós-graduação e educação corporativa. Atua também como palestrante, consultor e mentor. Tem cinco livros publicados.

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